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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Páginas Arrancadas II



De repente você vê que precisa arrancar uma página... mas não consegue.
Sua mão pega com fúria o canto direito superior, mas você permanece estagnada, como se algum veneno mortal escorregasse vagarosamente pelo seu esôfago e te paralisasse ali, naquele momento. Seus olhos vêem, mas sua cabeça está a anos dali.
E você vê que preparou com tanto amor, algo que pode deixar de existir num riscar de fósforos.
A página precisa ser arrancada... mas você não quer arrancar! Ou uma força maior provinda (vai saber d'onde) do mais profundo do seu ser te impede de fazer isso.

Tudo que vai... deixa o gosto... deixa as fotos.
E nem quero saber quanto tempo vai durar!
As linhas começam a ficar em branco. Alguns rabiscos começam a tomar conta do papel...
Onde está o sentido de tudo!?

Ao mesmo tempo VOCÊ PRECISA PREENCHER ESSAS LINHAS! Não preenchê-las deixa um VAZIO, deixa em BRANCO.
Ah e como o branco me deixa com medo! Como eu preciso encher aquele espaço de letras!
É nostálgico. É dor e vontade, é sofrimento com desejo! É angústia com expectativa!
E isso não combina com uma caneta com ponta de pena, sedutora, de escrever macio, com detalhes dourados... suave como 0.7 em alguns momentos, completamente marcante como 1.6 em outros... está com uma fita vermelha, com um laço simples... esperando ser tirada da gaveta da cômoda, esperando pra preencher minhas linhas!

O que eu quero!? Não sei!
Não sei. Não sei se a nostalgia me impede ou me impulsiona a usar a caneta. Não sei quanto tempo quero deixar essas linhas em branco! Não sei quanto tempo demoraria pra criar coragem de riscar o maldito fósforo.

Talvez eu não consiga arrancá-las agora. Talvez eu tenha apenas que esquecer um pouco essa pasta cor de rosa no fundo do guarda-roupa até ter anticorpos suficientes pra combater o veneno que faz arder a garganta e marejar os olhos... As imagens vão estar deitadas, no mesmo lugar, pegando poeira. As prateleiras por enquanto, tem que ficar cheias. As conchinhas do mar, por enquanto, vão ficar cobertas de areia. As cartas, cartões, papéis, fotos, flores secas vão ficar no baú. Porque a gente simplesmente tem que aprender o tempo de superar as coisas!