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domingo, 9 de dezembro de 2012

Páginas Arrancadas

É um ritual. Todas as férias eu organizo meu guarda-roupa.
Sempre tiro um saco de lixo dali de dentro, e elimino uma gaveta de roupas que não servem mais. É tão fim de ano esse ritual não é!?

Tenho as 6 últimas agendas dos últimos 6 anos.
E eu resolvi arrancar as páginas pra poder utilizar as folhas limpas pra escrever meus pensamentos.
Foram pouquíssimas folhas escritas nesses anos que passaram. Mas que desperdício. Uma folha de agenda em branco. No próximo ano isso não vai acontecer.

Arranquei só as boas. As guardei em envelopes escrito 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012.
Como foi bom recuperar memórias tão antigas. Sabe, lembrar do ensino médio, do cursinho, do inicio da faculdade, do inicio do namoro, e de todos contratempos que hoje compõem uma mini-série. Que na verdade não terão fim, nem se resolverão.

A minha primeira promessa para o próximo ano é: NÃO DEIXAR MAIS NENHUMA PÁGINA DA MINHA AGENDA EM BRANCO. Cansei de deixar o tempo roubar minhas palavras, roubar meus finais de semana. 
Cansei de ser escrava do tempo. Cansei de ver ele levando minhas memórias embora.
"I see my vision burns, i feel my memories fade with time, but i too young to worry..." - Não vou mais deixar. Vou ser aquele tipo de pessoa, que eu creio nem exista, que guarda as agendas numa caixa de papelão num canto do porão, e quando morre revela no testamento que aquela caixa existe. Deixarei meu maior patrimônio: a minha história. Pessoa são livros ambulantes. Sempre quando caminho pelas ruas e alguém me chama a atenção fico pensando: "Que capítulos tem por trás deste sujeito?" These streets we travel on will undergo our same lost past. - Que tipo de personagem ele é? Alguns guerreiros... outros assassinos... outras mulheres sofridas e crianças que comem em caixinha de leite. Pessoas são histórias em pleno desenvolvimento. Isso é tão lindo, tão emocionante!

Eu deveria registrar o que sinto cada vez que vejo meu amado subindo os degraus do ônibus, desaparecendo na estrada. Deveria registrar uma paisagem bonita, descrevê-la. Deveria comentar o estrago, ou reparo que uma canção produz em mim...
Porque eu imagino que no fim, será meu maior tesouro: as histórias que vivi.


Gostaria tanto de conseguir expressar o amor que tenho pela escrita, na minha opinião o maior de todos os patrimônios da humanidade. Meu instrumento mais amado, minha tradutora sentimental, minha "descritora" perfeita, minha argumentativa feroz. Minha fiel companheira de todos os dias do ano que vem. Como sou grata a todos que um dia me ensinaram a ler e a escrever.

No próximo ano minhas agendas serão divã. Serão objeto de bolsa. - A melody, a memory, or just one picture!

* Créditos a Rembrandt e A7x

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Almoço Cubano com os Barcellos

Dois dos atores mais excepcionais deste blog, na qual muitos posts são inspirados, atendem por um nome de família. Uma pronúncia italiana riquíssima, um marido e uma esposa brilhantes, cada um com suas peculiaridades.

Cidinha Barcellos tem 77 anos. É impossível descrever em palavras o que é esta mulher. Tem a doçura e ferocidade ao mesmo tempo em seu olhar. Mentalizem uma mulher terna, mas que luta bravamente por seus direitos. Esta é ela.

Zezinho está beirando a mesma idade. O conheço por Sr. Barcellos, um homem de filosofia e respeito, que gosta de tudo "preto no branco". Foi jornalista e trabalhou numa gráfica quando jovem (se não me engano), por isso a força da expressão "preto no branco".

Almas jovens, altas risadas, em tom e quantidade, e uma cultura que ultrapassou as paredes da sua casa e chegou até mim.

Ela com seus panos e agulhas. Ele, com suas palavras e filosofias desequilibradoras.
Falam de num volume alto, na norma culta, causando ares de chás da tarde de anos passados, vestidos armados. Um bolero rolava: melodia de fundo de cena cubana. Esse era o tema do dia: Cuba.
Mas não Cuba país. Cuba comida: vermelho provindo da bandeira. Agora o verde era o sabor mesmo.

O prato foi cuidadosamente elaborado pela senhoria masculina da cena, enquanto titubeava alguns passos de dança pela cozinha. Cheiro de algas perfumavam a atmosfera local. E ao abrir-se a panela, como uma criança que quer ver coelho sair da cartola, eu ansiava por ver a aparência da maravilhosa obra de arte culinária que sairia dali. Um macarrão se estampou de verde e vermelho no fundo negro de teflon. Limão pra companhar de forma líquida.


Assim desenrolou-se o início deste almoço de umas 2 horinhas, que me renderão vários capítulos neste blog. Aliás Barcellos a partir de hoje será um marcador. Sempre que lerem esse nome aqui, saibam que virão grandes histórias. Deixo vocês com gostinho de Cuba até o próximo proceder.