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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Contador e Ouvinte



Ao longo da tão amada faculdade de pedagogia, percebi que...
Futuramente serei contadora de histórias: Aquela que abre um livro, faz as crianças sentarem ou deitarem no chão e conta uma historinha bem legal pra estimular a imaginação delas, e claro, interpretando!
Eu tive uma contadora de histórias, mas eu já não era criança. Dona Matilde contava histórias pra oitava série. Os marmanjões de 14 anos deitavam na carteira e ouviam lindas e românticas histórias da mitologia grega, ou um conto super interessante de terror e suspense. A primeira professora que eu não vi como carrasco foi ela, e foi também quem me falou sobre faculdade, e quem fez eu me apaixonar por escrever, ler, e contar histórias.


Mas além de ser contadora, atualmente sou OUVINTE!
Meu emprego atualmente é um privilégio! Não porque não cansa... cansa sim, ainda mais quando se tem que escolher entre tomar banho ou jantar pra ir pra faculdade...
Mas porque, quando pedi pra Deus me colocar num emprego onde eu pudesse ajudar pessoas, lá foi Ele com Suas mãozinhas milagrosas e me colocou de ACS, um serviço onde eu aprendi a não ter nojo, a ser ainda mais humilde e caridosa, a ouvir, e também, principalmente, a enxergar que a sociedade ainda tem pontos muito precários a resolver. A sociedade também, mas sozinha ela não pode, é preciso sim das autoridades e de todo o dinheiro envolvido ¬¬'
Em minhas visitas, casa a casa eu recolho um grande conto, uma linda história de vida, uma lição de moral, uma boa reclamação, uma reivindicação correta, um lamento porque faltam remédios para todos que precisam!
Rubem Alves já chamava: A Arte de Ouvir.


Escrever as minhas histórias, querer publicá-las um dia, contá-las às crianças, é arte...
MAS NADA SE COMPARA A OUVIR! Tenho construído um ponto de vista de que ouvir, é quase um milagre em minha vida! O que seria de mim sem minhas histórias? MINHA NÃO! Dos meus amados pacientes! Das minhas vivências dia após dia em um posto de saúde.


A arte de ouvir, têm inspirado minha arte de escrever!

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A arte de Ouvir - por Rubem Alves


De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio.” É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: “Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes, juntas a cantar. E a melodia que não havia se agora a lembro, faz-me chorar...” A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.
Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio, é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare.
Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano o nome do filme é “Aconteceu em Tóquio”. Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do Ser. A filosofia oriental, pela questão do Vazio, do Nada. É no Vazio da jarra que se colocam flores.
O aprendizado do ouvir não se encontra em nossos currículos. A prática educativa tradicional se inicia com a palavra do professor. A menininha, Andréa, voltava do seu primeiro dia na creche. “Como é a professora?”, sua mãe lhe perguntou. Ao que ela respondeu: “Ela grita...” Não bastava que a professora falasse. Ela gritava. Não me lembro de que minha primeira professora, Da. Clotilde, tivesse jamais gritado. Mas me lembro dos gritos esganiçados que vinham da sala ao lado. Um único grito enche o espaço de medo. Na escola a violência começa com estupros verbais.
Milan Kundera conta a estória de Tamina, uma garçonete. “Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo? Não sei... O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas falam. Uma fala e outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu...’ e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu...’Essa frase ‘é exatamente como eu...’ parece ser uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo. É uma revolta brutal contra uma violência brutal: um esforço para libertar o nosso ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre os seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro...”
Será que era isso que acontecia na escola tradicional? O professor se apossando do ouvido do aluno ( pois não é essa a sua missão?), penetrando-o com a sua fala fálica e estuprando-o com a força da autoridade e a ameaça de castigos, sem se dar conta de que no ouvido silencioso do aluno há uma melodia que se toca. Talvez seja essa a razão porque há tantos cursos de oratória, procurados por políticos e executivos, mas não haja cursos de escutatória. Todo mundo quer falar. Ninguém quer ouvir.
Todo mundo quer ser escutado. (Como não há quem os escute, os adultos procuram um psicanalista, profissional pago do escutar.) Toda criança também quer ser escutada. Encontrei, na revista pedagógica italiana “Cem Mondialità” a sugestão de que, antes de se iniciarem as atividades de ensino e aprendizagem, os professores se dedicassem por semanas, talvez meses, a simplesmente ouvir as crianças. No silêncio das crianças há um programa de vida: sonhos. É dos sonhos que nasce a inteligência. A inteligência é a ferramenta que o corpo usa para transformar os seus sonhos em realidade. É preciso escutar as crianças para que a sua inteligência desabroche.
Sugiro então aos professores que, ao lado da sua justa preocupação com o falar claro, tenham também uma justa preocupação com o escutar claro. Amamos não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A escuta bonita é um bom colo para uma criança se assentar...



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